Mato Grosso,
Segunda-feira,
17 de Junho de 2019
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Artigos / Ariane de Campos Angioletti

Ariane de Campos Angioletti
Envelhecer no Brasil não é tarefa fácil! Hoje estamos com a nossa primeira geração de idosos que ultrapassaram os 80 anos, ou seja, é a primeira vez que temos uma geração de longevos, que além de sobreviventes, muitos estão contribuindo para a sociedade e para a manutenção familiar.
Esses idosos com mais de 80 anos não tiveram a convivência com idosos desta faixa etária enquanto foram jovens. Cresceram vendo seus avós e pais morrerem cedo, seguindo as expectativas das previsões populacionais do século XX. Por uma questão lógica, podemos entender que, se não cresceram convivendo com idosos, eles – os idosos atuais, também não sabem exatamente o que é ser um idoso. Parece um comentário bastante óbvio, mas poucas pessoas fazem essa relação e analisam os seus reflexos.
O primeiro reflexo de uma geração que “não sabia o que era um idoso longevo”, é o auto preconceito com a velhice. Muitos negam o próprio envelhecimento. Outros entendem que o envelhecimento é um acontecimento biológico que, automaticamente, cria uma condição de dependência do idoso com sua família, tornando-o um fardo pesado a ser carregado. Sentindo-se um fardo a ser carregados, os idosos anulam-se, passando a terceirizar as decisões sobre a sua vida diária ou, na outra ponta da, negam completamente qualquer necessidade mínima de apoio e auxílio.
O segundo reflexo está no não preparo para o próprio envelhecimento. Temos uma parcela dos idosos que não se prepararam para a aposentadoria, não contribuindo para a previdência. Também não imaginavam que viveriam para além dos seus pais e avôs e, portanto, não adotaram uma postura preventiva sobre a própria saúde. Assim, os idosos de hoje enfrentam uma velhice adoecida, com reflexos da falta de cuidado e cautela a que foram submetidos, sem ter, ainda, condições financeiras para arcar com os custos dessa saúde debilitada.
O terceiro reflexo, é a falta de preparo familiar para lidar com a velhice. Dá-se a impressão de que os idosos de hoje não acreditavam na própria longevidade, não criando ambientes familiares propícios para que seus filhos, netos e demais familiares, estivessem preparados para ofertar a atenção e cuidados necessários.
O quarto reflexo é o despreparo do poder público para lidar com uma população que vive mais, envelhece rápido e torna-se ainda mais dependente das políticas públicas. Essa é a praxe brasileira: mesmo tendo conhecimento do envelhecimento populacional, pouco se vê sobre mudanças nas posturas e políticas públicas direcionadas aos idosos. A população está envelhecendo e o poder público segue inerte com relação à esta realidade.
O quinto reflexo tem sido a judicialização da velhice, com o crescente aumento na busca pelo poder judiciário para sanar problemas causados pela ausência do poder público. Ações previdenciárias, processos solicitando medicamentos e tratamentos de saúde, ações no âmbito familiar para discutir interdição ou pagamento de alimentos aos pais pelos filhos, ações civis públicas contra as instituições que deveriam ofertar atendimento aos idosos e o fazem de forma precária, além de tantos outros processos que buscam o reconhecimento e estabelecimento do direito dos idosos numa sociedade que não está preparada para seu próprio envelhecimento.
A discussão sobre o envelhecimento e a inclusão dessa temática nas políticas públicas é urgente, para que esses reflexos não se perpetuem nas próximas gerações de idosos, para que possam viver a longevidade sem sentir-se um fardo para si e para os seus. Ademais, a mudança estrutural no atendimento ao idoso precisa acontecer para que o sexto reflexo se realize, que é a inserção do envelhecimento e do idoso na sociedade, sendo parte dela, sendo também alicerce e deixando de ser um peso a ser carregado.
 
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