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19/03/2020 | 12:19

"Envelhecer é uma poesia. Só é preciso se libertar", garante Judith Caggiano, a avó mais tatuada do Brasil

Redação TV Mais News

Ela mora em Santo André, mas se transformou na rainha dos motoclubes de todo o Grande ABC paulista. Isso depois dos 70 anos, quando andou de moto pela primeira vez na garupa do filho Sibanei. "Meu filho estava indo a uma confraternização e decidi ir com ele. Ele me perguntou 'mas, mãe, você nunca andou de moto?'. Eu respondi que sempre tem uma primeira vez para tudo, né?", conta Judith Caggiano. "Eles ficaram encantados em ver chegar mãe e filho. Fiz sucesso no encontro. Ganhei até uma camiseta". Hoje, além deste posto de musa dos motoclubes, ela ostenta mais um: o de avó mais tatuada do Brasil.

Aos 88 anos, Judith tem ao todo 73 desenhos espalhados pelo corpo. "Em breve serão 74. Está marcado, mas não tenho tido tempo de fazer. É uma estrela em homenagem ao meu mais novo bisneto", conta. Aliás, as estrelas são sua marca registrada: ela tem uma para cada um dos três filhos, cinco netos e sete bisnetos. A primeira foi feita aos 72 anos, pouco tempo depois que o marido morreu. Foi aí que decidiu se jogar no mundo. O primeiro ato do que começaria a ser o novo destino de Judith foi uma viagem sozinha. "Meus filhos se assustaram. 'Mãe, para onde você está indo?'". O destino era Minas Gerais, foi visitar algumas primas.


A viagem de 10 dias se transformou em 90. "Quase matei meus meninos do coração", ri. Uma das últimas paradas foi Umuarama, cidade paranaense divisa com o Paraguai. Lá, viu uns meninos fazendo uns desenhos no corpo com uma máquina de mão toda remendada. "Não sabia que ficava para sempre e fiquei com vontade de fazer uma. Perguntei quanto eles cobravam e disseram que não era nada. Escolhi um tribal e pedi para ser no meu pescoço", conta. A tatuagem demorou cinco horas para ficar pronta. "Quando vi, era só sangue saindo. Não sabia que cortava a pele, pensei que fosse canetinha. Achei que minha cabeça fosse cair do corpo (risos)".

Quando chegou em São Paulo, foi direto para a festa de aniversário de um dos bisnetos. "Mas fiquei pensando o que eles achariam. 'Minha mãe foi pura e voltou uma puta com tatuagem?'". Mas a experiência que tinha vivido foi muito forte e, ao pisar na cidade, ela entendeu o que aquele desenho significava. "Descobri como chamaria aquela tatuagem e me deu uma alegria imensa. Ela era a minha libertação. Não é lindo esse nome?", pergunta. Os filhos se assustaram com o que viram, "ficavam passando a mão pra ver se saía", mas ela não se intimidou. Começava ali um caminho sem volta. Além das estrelas, há flores e borboletas. "Eu gosto de voar. Porta de balada pra mim é que nem igreja. Está aberta, eu entro. Quero escutar música".

SEM MEDO DAS CRÍTICAS

Judith conta que, no começo, as pessoas ficavam chocadas, mas ela não liga para comentários. "Sempre me perguntam por que as pessoas não me criticam. Porque meu sorriso vem na frente. Nunca deixei de sorrir", diz.

O sorriso é marca registrada, foi com ele que enfrentou a infância difícil em Getulina, interior de São Paulo. "Ajudava meus pais na roça. Tinha dez irmãos". E também o casamento de 51 anos. "Nem sempre foi um mar de rosas. Ele foi um bom marido, todo mundo gostava dele, mas era muito controlador. Eu não podia olhar para o lado que ele achava que estava olhando para outro homem e não deixava nem eu ir sozinha na casa dos filhos", lembra. "O problema dele era eu".

Quando o marido morreu, Judith ficou pensando no que fazer. "Umas amigas me mandaram ir ao baile da terceira idade", conta. Logo na primeira vez foi tirada para dançar. "Ele era bem alto, colocou meu braço em volta do pescoço e não parava. Fui pra casa com o braço doendo!". Ela tentou a experiência de novo, mas foi ainda pior. "Um outro homem veio me tirar pra dançar. No meio da música, disse que eu estava dando uma alegria pra ele. Fiz que não entendi, mas ele continuou: 'imagina nós dois num quarto azul. Não ia faltar nada pra senhora. Nem amor nem rola dura'. Eu nem sabia o que significa aquilo, mas desconfiei depois que 'senti' algo. Fui embora e decidi que nunca mais voltaria naquele baile. Nem dançar eu sabia! (risos)".

SONHOS NADA IMPOSSÍVEIS

Ela pode não ter ido mais para os bailes, mas as baladas continuam firmes e fortes. Judith sai delas de madrugada. Como uma vez em que voltava às cinco horas da manhã e foi parada pela polícia quase chegando em casa. "Eles me perguntaram 'Dona Judith, de onde a senhora está vindo?' Eu respondi que era da missa. 'Mas onde tem missa a essa hora?'. Eu falei 'mas você não acredita mais em nada, é? Não sabe mais o horário das missas?'. Eles deram risada, mandaram eu seguir minha linha e foram embora". Judith é conhecida na região e não tem medo de andar sozinha. "Não tem perigo".

Outra coisa que ela garante é que sonhos não têm data para se realizarem. "Sempre quis ir ao cinema mas, em tanto tempo de casamento, nunca fui". A realização desse desejo viria anos depois. E foi tão completo que a experiência não passou por apenas assistir a um filme, mas sim a se ver ali na telona. Judith foi uma das personagens do longa-metragem "Envelhescência", dirigido por Gabriel Martinez e lançado em 2015. O longa mostra que não há idade para se reinventar e começar algo novo. "Quando cheguei em casa, sentei na cama e tive a noção do que tinha acontecido. Nunca tinha ido ao cinema e, a primeira vez, fui para assistir ao meu filme. Chorei um pouquinho", conta toda feliz. (veja o trailer abaixo)

Perto dos 90 anos, Judith fez mais uma coisa pela primeira vez: viajou sozinha para fora do Brasil. "Meu irmão me deu tudo para visitar meu neto Fabio na Inglaterra. Eu fui com a mala e só", afirma. Ficou um mês conhecendo o país e "passando muito frio".

BELEZA EM QUALQUER IDADE

"O segredo da beleza é saber engolir a vida, porque ela é linda", gosta de reforçar Judith, que nunca fez cirurgia plástica. Vaidosa, faz as unhas sozinha "com o esmalte que tiver, bonito ou feio", passa um leite de colônia e um blush para ficar em casa mesmo e não sai sem seu chapéu, item obrigatório em seus looks. "Eu saio e sempre acho que estou ótima".

A coragem de fazer as tatuagens foi a forma de se expor ao mundo, independente da idade. Para ela, as mulheres precisam parar de pensar nas dores do passado. "Pense em você sempre. Vá ao espelho, se olhe e sorria. Você cria coragem de ser como eu e vai acabar fazendo uma tatuagem na ponta do nariz!" (risos). Medo é uma palavra que não está em seu vocabulário e a vida é um livro que ainda está lendo. "Todo dia eu tenho surpresas. Envelhecer foi uma poesia para mim. Só é preciso se libertar"

Fonte: Marie Claire
 
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