Com a ala destinada a pacientes com Covid-19 lotada, o estoque de oxigênio do Hospital Evangélico de Mato Grosso do município de Vila Bela da Santíssima Trindade (521 km de Cuiabá), deve durar apenas até a noite desta quarta-feira (24). As empresas que abastecem a entidade filantrópica e a região informaram que, hoje, não têm o insumo e localidades próximas e não estão recebendo os pacientes da unidade por já estarem atuando com capacidade máxima. Diretora do hospital relata angústia diante da possibilidade dos pacientes morrerem pela falta do insumo.
“Informaram para gente que não vão entregar oxigênio hoje. Nós perdemos uma vida hoje de manhã, que era Covid-19, lutamos muito, fizemos tudo por essa vida, infelizmente veio a óbito. Temos mais um senhor aqui que precisa de UTI e nós não conseguimos vaga e esse senhor, se caso faltar oxigênio, pode ir a óbito, assim como os demais pacientes que estão em oxigênio podem agravar e perderem suas vidas”, conta aflita Maria Auxiliadora Dorileo Rosa, diretora administrativa e financeira da entidade filantrópica.
De acordo com Maria, o Hospital tem 95% da gestão compartilhada com o Sistema Único de Saúde (SUS) mas não recebe recursos do órgão para atendimentos relacionados a Covid-19. No ano passado, apenas após o recebimento de doações, a entidade conseguiu montar uma ala com 7 leitos de semi-estabilização para atendimento de pacientes com Covid-19.
Um ano depois, acompanhando a tendência nacional, com os leitos todos ocupados, com pacientes que respiram com o apoio de oxigênio hospitalar, o número tem sido insuficiente para a quantidade de pessoas infectadas que procuram a unidade de saúde da cidade e por isso eles também estão tendo que usar os leitos da ala tradicional do hospital para pacientes menos graves.
“Ano passado, com a filantropia, a gente conseguiu ajuda de recursos federais e doações também do Ministério Público, Poder Judiciário e outros, a gente conseguiu em torno de R$ 1,5 mi. Com esse recurso nós montamos 7 leitos de semi-estabilização, mas agora os recursos já estão acabando”, relata a diretora sobre o esgotamento das doações que o hospital recebeu para a construção da ala Covid-19.
Um contrato firmado entre a entidade e a prefeitura do município também garante a manutenção do Pronto Atendimento 24h, que presta serviços médicos de urgência e emergência para toda a população. Maria revela que nessa modalidade de serviço, 90% dos pacientes que são atendidos estão infectados pelo novo coronavírus. “Um pronto atendimento de 24h que atende urgência emergência portas abertas e todos os pacientes que chegam nesse pronto atendimento de 10, 9 tem sido covid”, relata.
Antes do colapso do sistema de saúde em Mato Grosso, que atualmente tem 98,07% dos leitos de UTI ocupados, os municípios que prestavam apoio a Vila Bela de Santíssima Trindade eram Pontes e Lacerda, Cáceres e Cuiabá. No novo cenário, a cidade se encontra isolada, com novos infectados a cada dia, sem poder transferir pacientes graves para uma UTI e observando a aflição dos que lutam contra o vírus sem terem tido o atendimento que precisam.
O senhor mencionado por Dora na reportagem, que neste momento está internado no hospital em estado grave é um dos que precisam do suporte que uma UTI oferece e assim como os outros 6 respira com a ajuda do oxigênio hospital. De acordo com a diretora, a Central de Regulação do Estado está ciente sobre a recusa que a transferência dos pacientes da unidade tem recebido de outros municípios. Ao relembrar o trajeto que os pacientes costumeiramente faziam para serem transferidos para uma UTI, Maria se emociona.
“Quando nós conseguimos uma vaga de uti e colocamos nossos pacientes na estrada para viajar 505 km, as ambulâncias devem fazer 6 7h [de viagem]. São pacientes que vão lutando pela vida daqui até lá, pelo menos para sobreviver, conseguir chegar, sobrevivendo se for pra Cuiabá, se for pra Cáceres e até Pontes, e isso tem sido um grande problema para nós. Hoje as dificuldades são: não conseguimos leitos de UTI, não conseguimos oxigênio e o sofrimento das vidas na estrada. Vila Bela precisa de ajuda, nós só queremos pedir ajuda”, desabafa.
Sem recursos, oxigênio e sem a possibilidade de transferência de pacientes, população pode ficar completamente desamparada. (Foto: Arquivo Pessoal)
O que diz a Secretaria de Estado de Saúde
Sobre a situação do hospital, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) diz que até o momento não foi notificada pela diretoria do Hospital Evangélico de Mato Grosso sobre a situação revelado a reportagem.
"A Secretaria Estadual de Saúde (SES-MT) informa que, até o momento, não recebeu qualquer ofício relativo ao desabastecimento de oxigênio no Hospital Evangélico, em Vila Bela da Santíssima Trindade", disse a secretaria em nota.
Falta de oxigênio no norte de MT
Com o aumento crescente e descontrolado de casos no estado, 28 outros municípios da região norte de Mato Grosso também têm estoque de oxigênio hospitalar que não deve durar até esta quinta-feira (25). Diante da situação, a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública de Mato Grosso entraram com ação para garantir o fornecimento de oxigênio para as cidades em alerta.
De acordo com o pedido de tutela de urgência em caráter antecedente em ação civil pública, a empresa Oxigênio Dois Irmãos Eireli, sediada em Sinop, responsável pelo envasamento e abastecimento de oxigênio hospitalar para as unidades de saúde da região norte do estado, foi comunicada pela empresa Messer Gases Ltda., fornecedora dos insumos argônio e oxigênio líquidos, que tais produtos não seriam mais retirados no município de Cubatão-SP, mas de Santa Cruz-RJ, adicionando 463 quilômetros ao percurso.
Na noite desta quarta-feira (23), o juiz substituto Hiram Armênio Xavier Pereira, da 2ª Vara Federal em Mato Grosso, decidiu acolher o pedido e determinou que a União forneça imediatamente a logística adequada para garantir que quantidade suficiente de oxigênio medicinal chegue aos municípios do Estado de Mato Grosso. O magistrado determinou também que a União, imediatamente, identifique em outros Estados a possibilidade de fornecer cilindros de oxigênio gasoso em condições de serem transportados pela via aérea para atender à demanda urgente dos municípios.
Governo diz que problema já afeta 50 municípios do estado
Em nota publicada à imprensa na segunda-feira (22), o governador Mauro Mendes (DEM) informou que a falta de oxigênio já afeta 50 municípios do estado, disse que já acionou o Ministério da Saúde para “para ajudar a restabelecer as condições e garantir o abastecimento [de oxigênio] nestas cidades”
Confira a nota na íntegra:
Sobre a falta de oxigênio e medicamentos para UTIs, o Governo de Mato Grosso esclarece:
1- A Secretaria de Estado de Saúde tomou todas as providências necessárias para garantir o contínuo fornecimento de oxigênio nos hospitais de sua responsabilidade. Entre as medidas adotadas estão os aditivos contratuais, aumento de reservatórios e diálogo com fornecedor sobre logística. Apesar do consumo 250% maior que a média normal, neste momento, o abastecimento na rede estadual está garantido.
2- Nos últimos 3 dias, dois distribuidores privados de oxigênio, que atendem à aproximadamente 50 municípios, alertaram para a dificuldade de logística, pois o abastecimento das cargas era realizado na cidade de Cubatão, em São Paulo, e foi transferido para o Rio de Janeiro. O fato está causando um tempo maior de transporte e, com isso, risco de desabastecimento. Neste momento não existem veículos disponíveis no país para ampliação da frota;
3- O Governo já acionou o Ministério da Saúde, que coordena a logística de fornecimento de oxigênio no país, para ajudar a restabelecer as condições e garantir o abastecimento nestas cidades. Segundo os dois distribuidores, se for resolvida a logística do local de embarque o problema estará solucionado;
4- A falta ou os baixos níveis de estoque de medicamentos para UTI é uma realidade em todo o país;
5- A Secretaria de Estado de Saúde já realizou compra antecipada destes medicamentos em 2020 e não existe, até o momento, risco de desabastecimento para as UTIs sob sua responsabilidade.
6- O Governo também monitora as UTIs privadas e dos hospitais municipais para ajudar a evitar o desabastecimento.
7- O Ministério da Saúde também é quem coordena, neste momento, todas as ações para tentar garantir o fornecimento desses medicamentos no país.
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FONTE: OLHAR DIRETO