20/06/2026 | 09:27
Queimadas são a maior fonte de emissão de poluentes em MT, alerta climatologista
Considerados o método mais barato de limpeza, os incêndios impactam de maneira agressiva a atmosfera e a saúde da população
Thalita Queiroz, RD News
Historicamente, Mato Grosso sofre, de maneira intensa, com incêndios. De acordo com o climatologista e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rodrigo Marques, as queimadas são, atualmente, a principal fonte de emissão de poluentes no estado. O profissional explica que a queima é o método mais barato de limpeza de grandes áreas, mesmo causando um grande impacto na atmosfera. Um dos grandes problemas apontados por Marques é o comprometimento da qualidade do ar no estado.
"Se você ver alguns dados que existem de partículas inaláveis, que são as que nós respiramos e que chegam até o alvéolo do pulmão, as concentrações de material particular inalável em Cuiabá e no Mato Grosso, que já foram medidas, são muito elevadas, quando eu comparo, inclusive, com São Paulo", exemplifica o climatologista.
Sobre a comparação com a capital paulista, Marques detalha que o maior problema na cidade costumava ser a emissão de partículas inaláveis por meio de veículos. No entanto, mesmo com o aumento da população e de automóveis rodando no município, o que melhorou foi a qualidade do combustível queimado. Isso porque obrigar empresas de combustível a realizarem o monitoramento e o controle da emissão de gases poluentes é possível, algo que não se consegue fazer com as queimadas, por exemplo.
O climatologista relembra que, durante um trabalho de monitoramento realizado até 2019, as concentrações de poluentes em períodos de seca e queimadas no estado sempre ultrapassaram o que é considerado como "aceitável" pela legislação brasileira. O professor ressalta ainda que o monitoramento de qualidade do ar demorou a iniciar em Mato Grosso.
De acordo com Marques, uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) de 1990 já previa que todos os estados do país deveriam implementar redes de monitoramento. No entanto, só entre 2024 e 2025 que o processo foi iniciado em terras mato-grossenses.
"Nós passamos 30 anos sem fazer o monitoramento. O maior problema é esse: vivemos um conflito grande no estado porque temos essa característica na economia de produção agrícola e pecuária, e o desmatamento acaba sendo a ferramenta que se utiliza para você ampliar as áreas", pontua.
Para além do meio ambiente, as queimadas impactam na saúde
Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) analisou os custos das internações hospitalares associadas a doenças cardiorrespiratórias entre os anos de 2010 e 2021. Segundo o relatório, a poluição atmosférica provocada por queimadas e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Cerrado setentrional gera um impacto financeiro médio anual de aproximadamente R$ 17,6 milhões aos cofres do Sistema Único de Saúde (SUS).
Marques explica que o período seco, que em Mato Grosso costuma ser no mês de agosto, tende a não só proporcionar o alastramento mais rápido de incêndios, mas compactuar com a piora da saúde respiratória de uma população já submetida a um ar não tão limpo.
"Por que em agosto? Porque eu tenho mais matéria fácil para queimar. Junho e julho geralmente têm frentes frias, mas em agosto, já está um período maior de seca. E as pessoas perguntam: mas o que a gente faz para mudar o clima? Eu falo: é mais fácil parar de queimar do que querer mudar a nossa estação seca. O conselho é parar de queimar, até porque, se você respirar fumaça, você morre", alerta.
Marques finaliza falando ainda sobre sua esperança de que os jovens mudem o cenário atual. "Eu acredito muito nas novas gerações, nas crianças. Porque é muito difícil mudar hábitos. Infelizmente, a gente está aprendendo do pior jeito possível", concluiu.