22/06/2026 | 08:38
"É como ganhar na mega": sargento de MT explica desafio do transplante e convoca doadores
Mato Grosso tem mais de 70 mil pessoas inscritas no registro nacional de doadores de medula, mas não realiza o transplante; pacientes precisam ser tratados em outros estados
Rojane Marta, VGN
"Eu vejo como uma segunda chance de vida", disse a sargento sobre o transplante.
Foto: Arquivo Pessoal
A sargento da Polícia Militar de Mato Grosso Miriã Bortolini Biazi foi diagnosticada com leucemia em fevereiro deste ano e descobriu, logo depois, que o tratamento de que precisava não estava disponível no estado onde vive e trabalha. O transplante de medula óssea não é realizado em Mato Grosso. Moradora de Cuiabá, ela deixou a cidade e foi para São Paulo, onde passou os meses seguintes em quimioterapia à espera do que os médicos chamam de janela de oportunidade, o momento em que a doença está controlada e o organismo tem condições de receber o transplante.
A espera durou quatro meses. O transplante foi feito neste mês de junho, com a medula doada pelo irmão dela, compatível. Agora em fase de recuperação, ela descreve o período pós-transplante como um recomeço. "É como se eu nascesse de novo", contou, ao relatar as restrições alimentares, o uso contínuo de medicamentos, os trinta dias de isolamento durante a internação e a necessidade de permanecer perto do hospital mesmo após a alta, porque qualquer infecção comum pode evoluir para um quadro grave enquanto a imunidade ainda se reconstrói. Os médicos fazem avaliações semanais.
A partir da própria experiência, a sargento decidiu pedir ajuda. O apelo tem dois caminhos, e os dois passam pelo MT-Hemocentro, em Cuiabá, único banco de sangue público do estado: o cadastro de novos doadores de medula óssea e a doação de sangue. Os dois são necessidades reais de quem enfrenta doenças como a dela. Durante o tratamento, ela precisou receber, por diversas vezes, plaquetas e hemácias, componentes obtidos a partir de doações de sangue. "Tem muita gente na mesma situação que eu", disse.
A doação de medula é o ponto que ela faz questão de explicar, porque é cercado de medo e desinformação. Encontrar um doador compatível é raro. "Para conseguir um doador compatível, é como se fosse ganhar numa mega-sena, ou talvez até mais difícil do que isso, se não for um parente", afirmou. É por causa dessa dificuldade que existe um registro internacional de voluntários: quanto mais gente cadastrada, maior a chance de um paciente encontrar a medula de que precisa. No Brasil, o cadastro é feito no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea, o REDOME.
Ela também procura desfazer o receio em torno do procedimento de doação. Muita gente, segundo a sargento, imagina algo doloroso, com uma agulha grande, e desiste antes de se informar. Na prática, o cadastro inicial é simples. Quem quer se tornar doador de medula em Mato Grosso deve procurar o MT-Hemocentro levando documento de identidade e comprovante de endereço. No local, preenche uma ficha e assina um termo que autoriza um exame de compatibilidade. São coletados cerca de 10 mililitros de sangue, e os dados passam a integrar o REDOME. A pessoa só é chamada se, algum dia, surgir um paciente compatível.
Quando essa compatibilidade aparece, a doação em si pode ser feita de duas formas, nenhuma delas com a gravidade que o imaginário popular costuma atribuir. Em uma, as células são retiradas do sangue por uma máquina, em processo parecido com uma doação comum, depois de o doador tomar, por alguns dias, um medicamento que estimula a produção dessas células. Na outra, há uma punção no osso da bacia, feita sob anestesia, com retirada de uma quantidade de medula equivalente a uma bolsa de sangue; o doador fica em observação e costuma voltar às atividades no dia seguinte, sem cicatriz.
Os números mostram por que cada cadastro conta. Segundo dados do portal transparência do REDOME, Mato Grosso tem 73.911 mil pessoas inscritas como doadoras, o que representa 2,02% da população. Mesmo assim, a compatibilidade é incomum: a chance de encontrar uma medula compatível pode ser de uma em cem mil entre não parentes. Em 2024, foram detectadas 67 compatibilidades envolvendo doadores cadastrados no estado. O MT-Hemocentro vinha ampliando as campanhas de conscientização justamente para enfrentar o medo e a desinformação que afastam possíveis doadores.
Para quem quiser doar sangue, em Mato Grosso, a sede do MT Hemocentro está localizada na rua 13 de Junho, 1.055, em Cuiabá. Para quem está em São Paulo, onde a sargento segue em tratamento, há pontos de coleta abertos todos os dias. A unidade do Paraíso fica na Rua Tomás Carvalhal, 711, e a da Bela Vista, junto à Beneficência Portuguesa, na Rua Maestro Cardim, 769, ambas das 7h às 18h, inclusive sábados, domingos e feriados. Em Santo André, na região metropolitana, o ponto fica na Avenida Dom Pedro II, 877, no Jardim, de segunda a sábado, das 7h às 12h.
"Eu vejo como uma segunda chance de vida", disse a sargento sobre o transplante. O pedido que ela faz, de Cuiabá a São Paulo, é que outras pessoas tenham a mesma chance.