14/10/2026 | 16:05
Translocação de micos-leões-pretos traz esperança para população ameaçada na região
Após transferir nove animais do Morro do Diabo, pesquisadores registram formação de novos grupos e buscam ampliar diversidade genética em fragmento com menos de 18 indivíduos
Redação O Imparcial
Foto: Reprodução/O Imparcial
Entre 10 e 20 anos, sem uma ação imediata, a reduzida população de micos-leões-pretos que vive em um fragmento florestal no Pontal do Paranapanema poderia ser extinta. No entanto, estratégia realizada por pesquisadores, ao que tudo indica, tem o potencial de mudar o rumo dessa história. Artigo recém-publicado na revista Global Ecology and Conservation, intitulado "Translocação como estratégia de conservação para o mico-leão-preto, espécie ameaçada de extinção: resultados, dinâmica social e uma abordagem baseada em indicadores para o manejo adaptativo", de setembro de 2026, conta justamente o que tem acontecido por lá e que traz esperança.
A área em questão é um fragmento de 500 hectares, com uma pequena população de micos estimada em menos de 18 indivíduos que, há pelo menos 10 anos, vem apresentando redução gradual no número de indivíduos. Estudos também mostraram que essa população possui características genéticas únicas - um ativo para a conservação da espécie no longo prazo - que poderiam ser perdidas caso ela desaparecesse. Para uma espécie ameaçada de extinção, o desaparecimento de mais uma população local representaria uma perda inestimável. Por isso, os pesquisadores optaram pela realização do manejo populacional, por meio de translocações, a principal estratégia de curto prazo para reforçar a população e favorecer a troca genética entre animais de diferentes fragmentos.
A iniciativa também tem sido acompanhada pelo órgão estadual gestor das unidades de conservação, responsável pelo Parque Estadual Morro do Diabo, e pelo órgão federal responsável pela conservação de primatas brasileiros, que participaram de todas as fases, desde o planejamento e autorizações até o monitoramento. A ação também conta com a chancela do PAN PPMA (Grupo de Assessoramento Técnico do Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas da Mata Atlântica e da Preguiça-de-coleira) e com o acompanhamento técnico do PMP-MLP (Programa de Manejo Populacional do Mico-leão-preto).
Em dois anos, os pesquisadores levaram ao todo nove micos-leões-pretos de dois grupos distintos do Parque Estadual Morro do Diabo, onde vive a maior população - cerca de 1,2 mil indivíduos - para o fragmento a 30 km de distância. A experiência, acompanhada pelos pesquisadores do IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) por meio de radiotelemetria e monitoramento acústico passivo, recém-publicada publicada no artigo, traz aprendizados sobre como monitorar e adaptar as estratégias de conservação diante das reviravoltas da vida na floresta.
Novos casais
O ciclo de translocações em questão teve início em janeiro de 2024, quando pesquisadores transferiram um grupo familiar composto por dois adultos (casal reprodutor) e três jovens (filhos desse casal, já próximos da idade reprodutiva). Em 2025, foi a vez de outro grupo familiar - com mais dois adultos e dois jovens - ser movido para a área. Logo nos primeiros dias após a soltura desse segundo grupo, os pesquisadores encontraram a fêmea alfa morta. A perda alterou a composição do grupo e, nos dias seguintes, os indivíduos começaram a apresentar maior distanciamento.
Pesquisadores lamentaram o ocorrido e seguiram acompanhando os demais indivíduos, conta Gabriela Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto e primeira autora do artigo. “Embora não tenha sido possível determinar a causa exata da morte, sabíamos que perdas iniciais são um risco possível em ações de manejo como essa. Ainda assim, foi um momento doloroso para todos os envolvidos. A ausência dessa fêmea alterou rapidamente a dinâmica do grupo”, recorda.
Em maio, após a recaptura, pesquisadores notaram uma reviravolta. A fêmea subadulta do grupo translocado em 2025 e o macho do grupo translocado em 2024 formaram um novo casal. Já na recaptura de julho, o macho adulto translocado em 2025 havia formado um novo grupo com duas fêmeas, uma translocada em 2024 e outra da população residente do fragmento. “Pela primeira vez, testemunhávamos uma verdadeira mistura de indivíduos de origens distintas, vivendo e se deslocando juntos como uma única unidade. A formação de novos grupos era justamente um dos resultados que esperávamos, embora tenha ocorrido mais cedo do que prevíamos”, conta Gabriela.
Daniel Angelo Felippi, veterinário do Programa de Conservação do Mico-leão-preto, conta que a perda de um dos indivíduos, embora tenha sido lamentável, desencadeou uma reorganização social que uniu animais de grupos diferentes. "A possibilidade de aumentar o fluxo gênico entre populações isoladas é encorajador e abre uma perspectiva importante para o futuro da espécie. Agora, com a aproximação da época de maior ocorrência de nascimentos, que se concentram na estação chuvosa - de setembro a março -, aguardamos ansiosamente pelo próximo capítulo e torcemos pela chegada de filhotes de micos nesses grupos recém-formados!”, afirma.
Corredores de Vida
Se a translocação é uma medida emergencial para evitar a extinção local da espécie nos fragmentos, a restauração do habitat é a principal estratégia complementar de longo prazo. Até o momento, por meio do projeto Corredores de Vida, também do IPÊ, mais de 14,2 milhões de mudas de árvores já foram plantadas na região, em áreas-chave para a conectividade entre os fragmentos.
As áreas restauradas formam uma verdadeira rede conectando tanto os dois principais fragmentos florestais da região, o Parque Estadual Morro do Diabo e a Estação Ecológica Mico-leão-preto, quanto criando conexões entre fragmentos da ESEC-MLP (Estação Ecológica Mico-Leão-Preto) e áreas de preservação permanente e de reservas legais.
Para Gabriela Rezende, é essencial que o Programa de Conservação do Mico-leão-preto, do IPÊ, siga de maneira paralela nas duas direções. “Espera-se que, à medida que esses corredores ecológicos se estabeleçam, o habitat disponível para a espécie aumente mais de oito vezes, facilitando a dispersão natural e o intercâmbio genético. No entanto, até que essa conectividade seja restaurada, o reforço demográfico por meio de translocação constitui uma estratégia de curto prazo necessária para evitar o colapso demográfico e manter viáveis no longo prazo as pequenas populações”, pondera.
Conhecimento compartilhado
No artigo, os pesquisadores analisam os resultados das duas translocações e, a partir dessa experiência, recomendam que protocolos futuros em processos de manejo como esses formalizem horizontes de monitoramento estendidos, superiores aos 24 meses inicialmente propostos, ou ao menos até que aconteça o primeiro ciclo reprodutivo bem-sucedido do grupo.
Outra sugestão é o uso de ferramentas de monitoramento complementares, como telemetria, monitoramento acústico passivo e eventos estratégicos de recaptura. “Essas perspectivas são todas baseadas na nossa prática com essas translocações mais recentes. Elas não apenas aprimoram futuras ações de translocação de micos-leões-pretos, mas também oferecem uma abordagem aplicável a outras iniciativas de reforço populacional de primatas em paisagens fragmentadas”, pontua Gabriela.