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02/05/2018 | 09:10

Alunos raspam a cabeça em apoio a professora com câncer

“Se não fosse por eles, acho que eu estaria o dia todo na cama chorando”, diz a educadora

Da Redação

Em tratamento contra um câncer no intestino há três meses, a professora Ana Helena Paroli decidiu na última semana fazer uma publicação em seu Facebook relatando a luta travada contra a doença. No dia seguinte à postagem, veio a surpresa. Ao entrar em sala de aula, ela viu que três dos seus alunos haviam raspado a cabeça em solidariedade.

 

O caso aconteceu no dia 24, em uma das salas do 3º ano do Colégio Maxi, no Bairro Quilombo, em Cuiabá.

 

A professora, que dá aulas de Literatura e História da Arte, contou em entrevista ao MidiaNews que ficou emocionada e surpresa com a atitude dos seus alunos.

 

“Ninguém sabia [da doença], porque eu só tinha contado para cinco pessoas, e todas eram da minha família. Não tinha contado pra mais ninguém. Então, quando eu os vi, levei um choque, eu não imaginava”, disse.

 

“Eles apareceram lá [na escola] com o cabelo cortado, e eu chorei muito quando os vi, mas não foi só isso: as meninas também foram com lenços na cabeça. Eles me deram muitos presentes, fizeram orações e manifestações lindas”, relatou.

 

Ana Helena revelou que foi diagnosticada em janeiro deste ano com um tumor colo retal maligno.

 

Se não fosse por eles, acho que estaria o dia todo na cama chorando, ou em depressão. Eles realmente estão sendo meu melhor remédio
Apesar de ter descoberto a doença ainda estágio inicial, a educadora precisou passar por cirurgia para a retirada do tumor, e, além disso, exames posteriores detectaram pequenas formações tumorais na mesma região. Por isso, foi necessária a quimioterapia.

 

“Eu ainda tenho alguns nódulos, porque eu sou celíaca [alérgica a glúten] e, por causa da doença, pode acontecer de o tumor voltar. Então, estou fazendo um tratamento desde fevereiro, que é uma ‘quimio oral’. Só que ela demora um pouco mais pra mostrar os efeitos colaterais. Eu comecei a ter mais dificuldades e fraqueza no mês passado”, contou.

 

A necessidade de raspar a cabeça veio depois que começou a quimioterapia, o que ela afirma ter sentido bastante, pois sempre gostou de pintar e cortar os cabelos.

 

“O meu cabelo começou a cair, ficar falho, ficou estranho e eu sempre gostei muito do meu cabelo, tanto que eu já tive ‘milhares’de versões dele: já fui loira de cabelo comprido, morena do cabelo curto, de tudo quanto é jeito, sempre gostei de mudar, então foi uma coisa meio dolorosa. Mas eu encarei como sendo um corte de cabelo novo, que eu nunca tinha feito”, explicou.

 

“Autoavaliação”

 

A educadora ainda afirmou que após sentir todo o carinho de seus alunos, inclusive ex-alunos que já se formaram, começou a se autoavaliar.

 

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"Acho importante as pessoas que estejam passando por isso tentem encarar desta forma, como uma provação, uma forma de crescer"

“Depois que eu publiquei no Face contando a respeito da minha doença, foram alunos de outras épocas lá na escola. Teve uma ex-aluna que foi na minha casa e fez uma maquiagem linda em mim. Os alunos dos cursinho também, de todos recebi carinho”,disse.

 

“Parece que me fez pensar numa autoavaliação. A gente fica imaginando: ‘quando eu morrer, quem será que vai ao meu velório? ’, não que eu vá morrer, não tem esse perigo, mas descobrir o quanto você é querida e, principalmente, como professora, não tem palavras para descrever. Se olhar no meu Face, muitos falam: ‘Você inspirou minha vida, mudei certas coisas’. E eu gosto de ser aquela professora ‘mãezona’, então tenho essa relação afetuosa mesmo. Até ganhei ano passado uma faixa de ‘mãezona do 3º ano’. Então, esse momento pra mim está sendo uma autoavaliação, do que eu acho que é certo e do que eu acho que tenho que mudar. Está sendo um crescimento de vida, e tenho certeza de que nunca mais vou ser a mesma pessoa depois disso”, contou.

 

Ana Helena  ainda precisará passar por mais um mês de tratamento, mas garante que continuará a dar aulas. Ela também afirmou que todas as mensagens e o apoio que recebeu de seus alunos lhe deram ânimo e força para continuar lutando.

 

“Estou dando aula, sim. Às vezes tenho que me sentar, porque minhas pernas doem muito. Os alunos estão sendo fenomenais, não tem conversa na minha aula e estão sendo muito parceiros. Se não fosse por eles, acho que eu estaria o dia todo na cama chorando, ou em depressão. Eles realmente estão sendo meu melhor remédio”, afirmou, emocionada.

 

Como profissional, a professora ainda destacou o papel da Educação que, segundo ela, não é devidamente valorizada.

 

"A educação às vezes não está sendo valorizada, mas ainda é uma das coisas mais nobres que a gente tem. E isso é uma coisa que eu estou vendo. Eu tenho lido depoimentos que me dão vontade de chorar, de ex-alunos que já estão fazendo faculdade, todos ali em solidariedade. E acho importante que as pessoas que estejam passando por isso tentem encarar desta forma, como uma provação, uma forma de crescer. Mesmo que você não vença, teve um pedaço da sua vida que as pessoas olharam para você diferente, elas se importaram de coração com você”, afirmou.
 
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