Investigações apontam que diretor de cadeia concedia vantagens em troca de propina
As investigações da Operação La Catedral apontam que o diretor da Cadeia Pública de Primavera do Leste, Valdeir Zeliz Dos Santos, concedia vantagens a detentos em troca do recebimento de propina.
Um dos membros do esquema era o ex-vereador e pré-candidato a prefeito de General Carneiro (450 km de Cuiabá), Magnun Vinnicios Rodrigues Alves de Araújo, que estava preso na cidade.
Conforme decisão judicial do juiz Alexandre Delicato Pampado, da Primeira Vara Criminal de Primavera do Leste, da representação formulada pelos delegados Rodolpho Garcia G. Bandeira e Honório G. Dos Anjos Neto, detalham o modus operandi dos investigados.
Segundos as investigações, o ex-vereador realizou transferências bancárias no valor de R$ 4,8 mil para a conta do diretor e mais R$ 9 mil para a conta corrente de um intermediário de Valdeir. O diretor da cadeia pública foi alvo de busca e apreensão, bloqueio de bens e afastamento do cargo.
Os delegados argumentam que não há justificativa para essas transferências. Magnun ficou preso na Cadeia Pública de Primavera por mais de seis meses em 2022 e na Operação La Catedral foi alvo de mandado de busca e apreensão.
Outros detentos também usufruíam da prática. Janderson Dos Santos Lopes teria pago R$ 20 mil para conseguir trabalho externo, valor que teria sido pago a Valdeir por intermédio de outras pessoas.
Janderson Lopes é apontado como líder do esquema criminoso. Ele foi alvo de mandados de prisão preventiva, busca e apreensão, bloqueio de valores e sequestro de bens.
A esposa de Janderson, Thais Emilia Siqueira Silva, já foi presa anteriormente pelo crime de lavagem de capitais. Segundo a Polícia, ela o auxiliava na abertura de empresas de fachada para lavar o dinheiro oriundo do tráfico de drogas nas operações policiais “Três Estados” e “Red Money”.
Thais possui sociedade de empresas e transaciona com pessoas jurídicas relacionadas com seu companheiro, movimentando vultuosas quantias de dinheiro, em valor superior a R$ 1 milhão sem qualquer lastro, uma vez ambos tiveram seus bens confiscados.
Patrimônio
Um dos principais alvos da investigação é Janderson dos Santos Lopes, de 30 anos, detido em regime fechado na unidade prisional de Primavera do Leste, após ser condenado a 39 anos de reclusão. Apesar de recluso, a Polícia Civil identificou que ele tinha total liberdade para continuar com suas atividades criminosas lideradas a partir da cadeia pública.
Janderson foi alvo de duas operações anteriores da Polícia Civil - Três Estados e Red Money - que investigaram os crimes de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Ele e a esposa os tiveram os bens confiscados e arrestados nas operações. Porém, após pouco mais de um ano de sua transferência para a cadeia de Primavera do Leste, Janderson adquiriu um considerável patrimônio, incluindo a abertura de empresas, compra de uma frota de caminhões com reboques e semirreboques; imóveis em Cuiabá, Primavera do Leste e Poxoréu; e veículos de luxo para ele e para sua esposa, que também foi presa.
Além disso, ele ostenta em rede social uma vida de alto padrão, compartilhando imagens de seus caminhões, carros, construções imobiliárias e também de gado bovino, como se fosse um cidadão livre. A equipe de investigação apurou que o criminoso tinha autorização judicial para trabalhar externamente e frequentar a faculdade em Primavera do Leste. No entanto, no período de investigação, a equipe policial constatou que ele não compareceu ao trabalho e nem às aulas do curso.
No ano passado, foi instaurado uma investigação para apurar supostas irregularidades na cadeia pública local, conforme apontada em correição realizada pelo Tribunal de Justiça em 2022. No inquérito, foi relatada a existência de um esquema de corrupção na venda de benefícios dentro da unidade prisional que incluíam, principalmente, a autorização de trabalho externo e alojamento privilegiado na cadeia.
Entre os pagamentos de propinas para o diretor da cadeia pública foi apurado que Janderson Lopes teria transferido R$ 20 mil, por intermédio de outras pessoas, para conseguir trabalho externo. Além dele, outros presos também teriam feito pagamentos para o trabalho extramuros.
Movimentação financeira
Dados analisados do relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) demonstraram transações realizadas entre os próprios investigados, corroborando, assim, os vínculos típicos de associação criminosa. Entre fevereiro de 2022 e novembro do ano passado foram feitas movimentações bancárias em valores que vão de 485 mil a 24 milhões de reais. Além das transações entre si, os investigados também receberam créditos e efetuaram depósitos em contas bancárias de presos ou familiares de presos.
“Esses relatórios evidenciam uma atividade típica de movimentação financeira associada à lavagem de capitais, uma vez que pessoas sem qualquer tipo de vínculo, seja pessoal, profissional ou geográfico, realizaram transferências bancárias em quantias significativas”, pontuaram os delegados Honório Neto e Rodolpho Bandeira, da Derf de Primavera do Leste
Nome da operação
Faz referência à La Catedral, prisão onde ficou o narcotraficante Pablo Escobar, na Colômbia. A unidade era vigiada pelos próprios homens de confiança do traficante, que fez do local uma extensão de seus negócios ilícitos e da prisão continuava comandando o tráfico de drogas e outras ações violentas, até ser extraditado para os Estados Unidos. A prisão contava com regalias, como salas de jogos, academia e campo de futebol. Em La Catedral, Escobar realizava festas marcadas com bebidas, drogas e mulheres. O cumprimento das ordens judiciais conta com efetivo operacional das unidades da Regional de Primavera do Leste, da Diretoria Metropolitana e Diretoria de Atividades Especiais da Polícia Civil.